Vinhos, comida, música e amigos

Por Gerson Lopes

 Fechando a descrição dos dois últimos flights de vinhos na noite “Vinhos, comida, música e amigos”, a prova foi descobrir qual o vinho Syrah que teria um pouco da uva branca Viognier e qual dos três teria a preferência entre os confrades. Desfilaram às cegas grandes vinhos do Rhône, dois Côte Roties e um Hermitage: Cote Rotie Guigal La Turque 1989 (RP 99/100) e Guigal La Landonne 1997 (RP 98/100) e o Hemitage La Chapelle 1990 (RP 100/100).

 

 

Os Côte Rôtie estavam naquele grupo que se diz La La La’s de Guigal, simplificação de La Landonne, La Turque e La Mouline (este não estava). O primeiro é 100% de Syrah da Côte Brune, ao passo que o segundo, apesar de ser originário também da Côte Brune, tem além da Syrah um pouco da uva branca Viognier (o vinhedo que origina esta marca tem 7% de Viognier). O La Landonne é o mais tânico, e mais longevo deles, ao passo que o La Turque é, em linhas gerais, a combinação do La Landonne com o La Mouline. O terceiro vinho da noite é também um clássico, o Hermitage La Chapelle, 100% Syrah, da denominação de mesmo nome.

Em Côte Rôtie, os Syrah costumam ter coloração menos intensa, porém têm aromas mais expressivos com traços florais e tostados. O seu toque floral se deve à influência da pequena proporção da branca Viognier usada no corte típico do local e, diga-se de passagem, muito copiado em outras partes do mundo, propiciando um etilo delicado de Syrah. Os Côte Rôtie Guigal, um dos mais afamados viticultores dessa região, com os seus La La La’s – La Mouline, La Landonne e La Turque – ao contrário, se mostram tão intensos quanto os Hermitages, às vezes mais ainda. Os Hermitage, de uvas Syrah das encostas íngremes da região (de mesmo nome), têm taninos firmes e notas minerais e de groselhas.

Ganhou em preferência o Côte Rôtie La Turque 1989 seguido pelo Hermitage La Chapelle 1990, depois o Côte Rotie La Landonne 1997. Talvez o La Turque tenha seduzido mais pela delicadeza e seu toque floral. Já o La Landonne de uma safra bem inferior à de 1989 mostrava algo rústico, fechado. O La Chapelle 1990. junto com o 78 e o 61, constituem o trio de ouro deste vinho. Estava realmente sensacional, mas ao contrário de Jeb Dunnuck (na época da equipe de Parker) não é o meu preferido, pois, nas várias vezes que tomei o 78 e o 90, o primeiro fica muito mais tempo em minha memória. Infelizmente, nunca tive a oportunidade de provar o mito La Chapelle 1961. Evoluiu para algo de algo de carne, couro, chocolate e toques de tabaco e especiarias (pimenta   do reino). Chamava atenção o seu frescor.

Uma das outras baterias da noite foi com cinco vinhos que representam cinco das mais famosas regiões do mundo: Douro, Rioja, Ribera del Duero, Piemonte e Borgonha. E todos verdadeiros ícones. São eles:  Barca Velha 1991 (Douro); Vega Sicília Único 1990 (Ribera del Duero); Castillo Ygay Reserva Especial 1968 (Rioja); Louis Jadot Chambertin Clos de Bèze 1990 (Borgonha) e Elio Altare Barolo Vigneto Arborina 1990 (Piemonte).

 O Barca Velha 1991 (JR 18.5/20) ganhou na preferência. Todas as vezes que participei de verticais de Barca Velha não havia espaço (por enquanto) para colocações feitas geralmente a vinhos tipo “cheguei”, próprio de uma extração intensa, muitas vezes, violenta. Aqui, a meu ver, reside a principal diferença com outros grandes vinhos do Douro. Não por acaso, a famosa crítica inglesa Jancis Robinson (deu 18,5 potos em 20) descreveu o ’91: “Nariz muito diferente da era moderna dos outros grandes do Douro. Muito complexo de folhas de outono, muita acidez, grande profundidade, ainda um pouco mastigável, mas com grande acidez e vida…” Provado em junho de 2009. Como dizem os irmãos da boa terrinha quando querem elogiar: BV ’91 é um “giro”!

O Castillo Ygay Reserva Especial 1968 (RP 93/100), para alguns dos presentes foi o melhor de todos da rodada. Bateu cabeça junto com o Barolo Altare e Barca Velha pelos preferidos. Ainda tinha potencial de vida para evoluir com nobreza. Aromas e sabores em camadas e de uma complexidade ímpar. Bravo!!

Elio Altare Barolo Vigneto Arborina 1990 (Vinous 95/100), reforça mais ainda minha seleção de Barolo (ou Barbaresco) ser um dos três melhores vinhos de minha vida. Os três são BBB. Fica fácil saber quais são, né? Grande safra, grande vinhedo (Vigneto Arborina) e produtor top ou topo de gama como falam os portugueses. Elio Altare, como Gaja chocou muito os tradicionalistas de Piemonte, com suas ideias modernistas. Quem tiver este vinho pode esperar mais alguns bons anos pela frente, porém está muito delicioso agora. Sensazionale!

Vega Sicília Único 1990 (RP 96/100), ficou em penúltimo lugar. Alguns Vegas não me encantam e os 90 são um deles. Outras vezes que o provei sempre se mostrou um ótimo vinho, porém não atingia a excelência esperada de um Vega Único.

Louis Jadot Chambertin Clos de Bèze 1990 (RP 96/100) parecia estar distante do grande vinhedo Grand Cru que origina um dos melhores bourgognes. Propiciou algum prazer, porém foi o lanterna no quesito preferência.

Os dois outros flights podem ser acessados aqui: http://pisandoemuvas.com/2019/05/21/supertoscanos-os-vinhos-fora-da-lei/
http://pisandoemuvas.com/2019/05/26/a-safra-1990-em-bordeaux/

Gerson Lopes – criador da Wine & Joy em Belo Horizonte/MG.

 

 

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