Uma pequena Toscana no Uruguai

Por Gerson Lopes

Em estilo mais típico da Toscana com parcelas de vinhedos “chiquitos”, a bodega uruguaia Garzón vem se posicionando no cenário da bebida de Baco de maneira espetacular, tanto que recebeu pela prestigiosa revista norte-americana Wine Enthusiast o prêmio de “New World Winery of the Year 2018”, ou seja, a melhor vínicola do Novo Mundo. No Brasil, os vinhos são importados pela World Wine.

E tudo começou “ontem”, em 2008, pouco mais de 10 anos. Fico imaginando pelo que vi e senti ao visitar a Garzón, quais serão os seus limites quando ela sair de sua adolescência, diga-se de passagem, vivenciada a passos largos. Seu proprietário, um argentino visionário, Alejandro Bulgheroni, pode ter ficado espantado com este crescimento vigoroso do mesmo jeito que provavelmente aconteceu ao observar seus filhos na época do estirão pubertário, no jargão médico, quando os jovens espicham aos olhos sobressaltados dos pais.

De “um dia para o outro” os filhos crescem e os pais se assustam. Neste caso (nos filhos), no estirão, atuam a genética e hormônios. Já no caso da Garzón foram necessários muito investimentos e muitos sonhos. Sempre disse que, no mundo dos sonhos, os preços não contam. Deve ter sido isso que moveu e move este empresário.  E, naturalmente, muito trabalho e uma equipe muito eficiente e coesa.

Atualmente são 247 hectares de vinhedos divididos em 1204 parcelas, com vinhas de DNA completamente diferentes. Para imaginarem o trabalho que dá, apenas em uma colina há sete parcelas de tannat – a uva mais plantada, não por acaso é ela que dá a identidade do Uruguai. Entretanto, há muitas outras castas e em clones diversos. Daí as diferentes tipicidades que podemos observar em seus vinhos.

Na Garzón temos ainda muitas variedades de uvas ainda em experimentação (Cinsault, Vermentino, Grenache etc) porém destacaria as brancas Albariño, Sauvignon Blanc, Pinot Grigio e a Petit Manseg (seu vinho de sobremesa é delicioso) e, nas tintas, a Cabernet Franc, Petit Verdot, Merlot, Marselan, Pinot Noir e naturalmente a Tannat. Aliás,  posso adiantar que, nos seus vinhos com esta uva emblemática, há uma fineza de taninos que não se consegue extrair em outras regiões uruguaias. Parece ser isso possível só em Maldonado, graças ao seu solo de granito.  E isso foi muito bem exposto pelo seu enólogo consultor, Alberto Antonini, italiano da Toscana e famoso no mundo do vinho.

Inicialmente pensou-se para este sítio investimentos em energia eólica e, posteriomente, na plantação de oliveiras, o que foi de fato feito. Surgiu daí a primeira empresa uruguaia especializada em azeites, a Colinas de Garzón, que vale a pena visitar e comprar seus produtos elaborados da maneira mais natural possível propiciando-nos, dependendo de sua escolha, algo mais frutal, picante, ou discreto amargor, porém todos com nível de acidez menor que 0,2%.

Mas voltemos ao vinho e à sua história na Bodega Garzón. Antes de começarem a investir nos “moinhos de vento”. alguém sugeriu que convidassem Alberto Antonini a conhecer a região para ver se seria viável plantar vinhas. Antonini veio de avião e se encantou particularmente pelo solo, abundante de granito – aqui chamado de balasto. “Um terruño complexo, difícil, mas não há grandes vinhos em terruño fácil”, disse Antonini.

Este famoso “fazedor de vinhos”, como se posicionou, deixou claro que sua proposta aqui seria a de fazer um “vinho de micro- terruño e não um vinho de enólogo, pois cremos em Garzón, na pureza de seus vinhos”. Propôs uma enologia menos invasiva, preservando a vegetação o máximo possível. Deixou claro que, por ser menos invasiva, teriam de ser mais observadores. Lembrem que disse anteriormente que na Garzón temos 1204 parcelas de vinhas, portanto, mais de mil micro-terruños a serem observados. É preciso  olhar de águia, muito acurado e paciência para ver como cada um deles irá se expressar.

Naturalmente vale e muito a experiencia do grande enólogo. Ele pensou nas variedades de uvas a serem plantadas. Uma delas veio de imediato, a branca Albariño. Muitas coisas o fizeram lembrar da Galícia: similaridade de solo, proximidade do mar do Atlântico, boa quantidade de chuva e por ser uma casta muito resistente à Botritys, provavelmente aqui poderia encontrar seu terroir ideal. E a resposta não poderia ser tão fantástica como veio. Os vinhos Albariño da Garzón são simplesmente sensacionais e estão no mesmo nível dos melhores vinhos do mundo com esta uva. O top deles, o Petit Clos Albariño 2019 Block 27, de exposição sul, teve sua vindima realizada à noite para evitar qualquer toque de oxidação de suas uvas já que se trata de casta muito sensível à oxidação (em temperatura mais baixas as reações enzimáticas são mais lentas). Particularmente o coloco como um dos melhores vinhos brancos que provei nos últimos tempos, e posso dizer que provei grande ícones mundiais.

Nesta visita tive a oportunidade de provar os seus vinhos em todas as linhas – Estate, Reserva, Single Vineyard, Petit Clos e Balasto. Recomendaria todos, em particular, os brancos Pinot Grigio 2018 e Sauvignon Blanc 2019 e o Rose Pinot Noir 2019. Os três da linha de entrada – Estate – chamaram-me a atenção por serem frescos e vibrantes. Na linha Reserva bebi o branco Albariño 2018 – um desses para comprar em caixas, e os tintos Cabernet Franc 2018 – aqui está dando vinhos tão bons quanto os melhores da Argentina- e o Tannat 2018, como disse anteriormente, bem diferente do resto do país. São tintos fáceis de beber.

Entre os Single Vineyard (SV) adorei o Sauvignon Blanc 2019, que me fez lembrar de alguns bons Sancerres (Loire) que provei quando estive por lá; além é claro do Albariño 2017 e 2018 (tivemos sorte de prová-lo em duas safras). Nos tintosm indicaria o Pinot Noir 2018, bem Novo Mundo ao nariz, porém na boca, fresco, nada alcoólico e o Tannat 2017, delicioso com o cordeiro.

Agora vamos falar de uma de suas linhas mais caras. Um é o Petit Clos (PC), onde as uvas veem de uma parcela única, com um clone classe A, em uma posição topográfica privilegiada de modo a obter vinhos de mais estrutura, porém elegantes e de grande potencial de guarda. Provamos e indico para provarem agora ou para guardarem em uma adega que se preze os Albariño Block 2019 #Block 27, indescritível por palavras. Temos que senti-lo e posso dizer que beira à perfeição! As notas balsâmicas, vegetais, e a frescura do PC Cabernet Franc Block 2017 Block #560 encantou a todos, assim como, o PC Tannat 2018 Bloc #212 com seus taninos macios e elegantes.

Para fechar em grande estilo, provamos o vinho icônico da Garzón, o Balasto, desde sua versão original, 2015, e as duas seguintes 2016 e 2017. Sob orientação de Alberto Antonini iniciamos esta pequena e memorável vertical com o mais novo. O 2017 pedindo um pouco mais de paciência na guarda, o 2016 excepcional e naturalmente o 2015 já mostrando alguns sinais de evolução, embora ainda discretos. Em todos, observaram-se complexidade, taninos finos e elegantes, frescor e muita vida pela frente, particularmente, nos dois mais novos. O Balasto pode e deve ser incluído no mapa dos melhores vinhos do planeta. É triste pensar que muitos ainda acreditam que só o rótulos do Velho Mundo merecem o lugar mais alto do pódio.

Já eu estou à espera da próxima safra do Balasto. Enquanto estávamos lá foi feito a assemblage final do 2018.

Aguardemos!

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