(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Fernando Pessoa, “A Tabacaria”

Assim como Proust, levado à sua infância por um pedaço de Madeleine molhado em um chá, acreditamos que comida e bebida formam um universo emocional e sensorial que mescla gastronomia, bebidas, viagens, livros, filmes, artes plásticas, música, fotografias, textos, sabores, amores, vinhos, viagens, visitas, restaurantes, bares, botecos, cervejas, chás, chocolates, cafés, coquetéis, charutos, histórias, fotos, emoções. Brasil adentro, mundo afora. É um universo em que se começa, mas não se termina, em que se buscam as memórias de um tempo perdido, se experimenta o presente ou se sonha o futuro. Ninguém é mais otimista que alguém que tem adega e espera sobreviver às garrafas estocadas.

Nossa filosofia é a “Festa de Babette”, em que até os puritanos mais afastados dos prazeres carnais se desfazem de seus preconceitos para viver uma noite inesquecível diante dos prazeres de uma grande refeição, sem máscaras. Ao vencer um prêmio da loteria, Babette não voltou à sua terra natal, a França, onde cozinhava no Café Anglais, em Paris, mas resolveu continuar na Dinamarca, gastando até o último centavo para brilhar e para compartilhar sua arte. Cozinhar é amar, é ato sensual, é confortar. Escolher uma garrafa e abri-la é contar uma história, do produtor ao importador, da rolha ao rótulo.

Não achamos que Miles, de “Sideways”, cometeu um pecado capital ao beber a estrela da sua adega – o château Cheval Blanc 1961 – em um copo de plástico em uma lanchonete de beira de estrada. Guardou aquela garrafa para celebrar seu décimo aniversário de casamento. Divorciado e tendo sabido que sua ex-mulher esperava um filho, buscou exorcizar seus fantasmas, mas não sem antes apreciar os aromas de um lendário Bordeaux, mesmo em copo de coca-cola.

Não damos notas para bebidas, não somos objetivos, nem cartesianos, elogiamos o que gostamos, visitamos quem nos conta uma história ou nos emociona, experimentamos, vivemos, escrevemos, fotografamos, comemos, bebemos, compartilhamos o que achamos que vale a pena. Pode ser em um boteco à beira rio no centro de Belém, pode ser em uma visita a um domaine prestigiado da Bourgogne, pode ser com uma cerveja artesanal do interior do Brasil, pode ser ouvindo uma história de um pescador, pode ser numa roda de samba no Rio.