Desde criança, sempre gostei de ir a restaurantes. O balé misterioso do salão e da cozinha me chamava a atenção, as conversas das mesas ao lado despertavam na mente milhares de histórias com personagens fictícios, a descoberta de novos sabores me dava mais prazer do que ganhar um Playmobil. Quando descobri o inesgotável xadrez de terroirs de Barolo e da Bourgogne, no início dos anos 2000, a paixão cresceu: era possível conciliar Baco e boca.

 

Alguns anos mais tarde, mais precisamente em novembro de 2008, no Rio de Janeiro, consegui, depois de algumas idas e vindas, marcar uma reserva e ir pela primeira vez àquela casa alaranjada de dois andares da Lineu de Paula Machado, 916, no Jardim Botânico, que chamei de minha casa no Rio por tanto tempo.

Era um sábado à noite. Vieram o pão e a manteiga feitos na casa, o gougères, o salaminho vindo lá do Rio Grande do Sul, o mandiopã, o patê da campanha. Quando chegou o primeiro prato do jantar, os aspargos com caramelo picante, fiz um pedido inusitado: daria para repetir? Ovo caipira em crocante de pão e foie gras; vermelho em vinagrete de lentilhas, brotos e ervas. Agnóstico, já chamava por Deus no meio da refeição.

O vermelho me fez ter uma certeza, quem cozinha pescados e frutos do mar daquele jeito não é desse mundo: era preciso pedir uma meia garrafa de vinho tinto da Bourgogne, o bourgogne tinto 2005 de Jean Marc Boillot, para acompanhar a codorna que viria na sequência. Quando ela chegou, contemplei-a com os olhos e levei com uma garfada à boca. Foram dez segundos para entender finalmente o sentido das madeleines de Proust, muito menos do que os anos levados para ler a obra memorialista.

Assim como Proust, levado às memórias de infância pela guloseima embebida em chá, eu vi vida naquele prato saboroso, suculento, emocionante. Havia poesia. Havia tudo. Quis cumprimentar a chef, mas ela não estava, o restaurante tinha mantido um grau de excelência sem a presença da regente máxima, a maior prova que se faz a uma mesa. Subi à cozinha e agradeci a cada um o que tinha vivido.

Dez anos depois lembro da primeira vez como se fosse hoje. Foram várias oportunidades ao longo dos anos, comemorei quase uma década de aniversários lá, almocei, jantei, fiquei amigo de muita gente de lá, aprendi Proust e aprendi também Guimarães: “saudade é ser, depois de ter”.

Cozinhar é uma das mais afetivas ações que alguém pode fazer. Cozinhar com arte é para gênios. O amor que Roberta Sudbrack dedica às caçarolas se assemelha à paixão do telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza, descrita em detalhes por Gabriel Garcia Marques, cronista maior da literatura mágica, dono de clássicos que explicam a alma do mundo. Lembra a obsessão de Fernando Pessoa, poeta maior em qualquer língua, que escreveu os devaneios dos sonhos e da terra. Das caçarolas à literatura. Quem consegue fazer isso?

Que o novo endereço de Roberta abra em breve. Quero aprender muito mais de literatura, de música, de comida, de arte, da vida.

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