Por Ana Carolina Utimati e Lucas Gavião *

Como todo falante da língua portuguesa consegue deduzir, Piemonte é um nome que deriva da expressão latina “aos pés das montanhas”. O que nós não imaginávamos é que, uma vez no Piemonte, esse apelido seria sentido de forma tão veemente. Você está e se sente, literalmente, aos pés dos Alpes, que, mesmo em dias nebulosos, dominam o horizonte. Quando o tempo está limpo, é impossível não se maravilhar com a beleza do vale do Pó e das montanhas cobertas de neve.

Escolhemos visitar o Piemonte no outono porque, além de aproveitar os míticos vinhos da região, poderíamos também conhecer a famosa feira de trufas brancas de Alba, que acontece anualmente do início de outubro ao final de novembro. Piemonte é o nome de uma região administrativa do norte da Itália e, também, da região vinícola que engloba dezenas de comunas e áreas produtoras de vinho, classificadas e protegidas pelas leis italianas. A região administrativa do Piemonte é bem representada pela rica cidade de Turim, berço da unificação italiana, da FIAT e da vecchia signora Juventus. O Piemonte que visitamos, a todo momento mencionado neste texto, está longe dessa realidade cosmopolita. Trata-se da pequena e simpática cidade de Alba e das regiões vinícolas ao redor: Barolo, Barbaresco, Barbera d’Alba e outras.

Alba tem cerca de 30 mil habitantes, um centro comercial agradável com lojas de produtos locais, alguns prédios históricos, praças e pequenas igrejas, sendo possível conhecer a cidade em algumas horas. As outras cidades ao redor de Alba não são pequenas – são minúsculas. Muitas delas se resumem a três ou quatro ruas em volta da praça principal ou do castelo ou da igreja (e isso inclui a própria cidade de Barolo, que dá nome ao vinho). Visitamos as vilas de La Morra, Castiglione Falletto, Monforte d’Alba e Barolo. Todas muito agradáveis e incrivelmente vazias.

Barolo, quase toda a cidade

Visitamos recentemente a Toscana e o contraste com o Piemonte é interessante, porque são as duas principais regiões vinícolas da Itália. Por ter cidades que foram muito importantes na Idade Média, como Florença, Siena e Pisa, a Toscana ostenta uma riquíssima herança dessa época na arquitetura e na arte. Ao contrário, e sem nenhum demérito a Alba e às bonitas vilas da região, o Piemonte não possui herança histórica da mesma magnitude. A austeridade é a regra e nos pareceu que a região de Alba foi, talvez até a tardia industrialização italiana, um tanto pobre.

Essas características tornam ambas as viagens muito diferentes, porém, igualmente prazerosas, cada qual a sua maneira. Ao visitar a Toscana, queremos Chiantis, Supertoscanos e Brunellos, mas também queremos duomos, torres, Botticellis e Michelangelos – a “competição” entre as atrações é grande e a viagem é do tipo que, sem querer perder nada, você volta com as pernas doendo. A visita ao Piemonte é muito mais relaxante e o foco está nos pratos e nas taças – aqui, embora com quilos a mais, volta-se para casa mais leve.

Para visitar Alba e região é importante estar de carro ou contratar um motorista. As estradas são boas, apesar de alguns trechos serem um pouco tortuosos. Como referência, do aeroporto de Milão-Malpensa, chega-se em Alba em aproximadamente 2 horas. Para visitar as vilas da região, vale a dica de estacionar o carro logo que possível na entrada da cidade e continuar a pé, já que muitas ruas são inacessíveis de carro.

O hotel. Nós ficamos no Relais Villa d’Amelia e gostamos bastante. O hotel fica em um prédio do século XIX renovado e mantem as características da arquitetura da região (que lembra grandes casas de campo coloniais). O hotel é bonito, o serviço é muito bom, o café da manhã é excelente (com o bônus da vista para os Alpes). Tem dois restaurantes ótimos (um “gourmet” e um bistrô) e um belo bar para drinks (experimentem as grappe locais de alta qualidade). Ficamos no quarto mais simples e foi muito bom, apesar de o chuveiro ser “padrão europeu”. O único defeito do hotel é que não tem um spa organizado; existe uma sauna e uma jacuzzi interna e é possível pedir para agendar massagens, mas não é realmente um spa.

Nós gostamos muito e recomendamos o hotel, mas talvez o mais importante sobre a hospedagem na região de Alba seja a localização. Se o seu interesse é permanecer nos arredores, as comunas mais próximas das regiões de Barolo e Barbaresco ficam a cerca de meia hora de carro. Gostamos muito do fato de o Relais Villa d’Amelia ser perto (15 minutos) de Alba, de ter a cidade por perto, para passear, comer, tomar um café. Outros hotéis que consideramos eram em áreas mais remotas, o que pode dificultar a movimentação especialmente à noite.

Fizemos muitas pesquisas sobre hotéis na região e não achamos muitas opções excelentes. Provavelmente isso acontece porque só há grande visitação na região durante esses dois meses do outono. Por isso, é importante reservar com bastante antecedência. Tínhamos ouvido falar muito bem do Relais San Maurizio, porém, muitos meses antes da viagem, já estava lotado.

Restaurantes e comida. Aqui também vale a recomendação de reservar com antecedência (e confirmar um pouco antes, o que a maior parte dos hotéis se dispõe a fazer). O Piemonte não tem uma estrutura turística enorme e, especialmente no outono, a região recebe muitos visitantes. Assim, mesmo restaurantes simples para almoço ficam lotados.

Nessa época do ano, praticamente todos os restaurantes tem um menu especial de trufas brancas. Elas são servidas abundantemente sobre pratos simples, como carne cruda, ovos, risotos ou o tajarin local. Desnecessário dizer que tudo fica maravilhoso. As trufas brancas combinam muito bem com o estilo piemontês que – diferentemente da cozinha da Toscana, carregada em azeites, tomates e ervas – trabalha com manteiga, queijos derretidos e molhos cremosos. Você não vê os Alpes por acaso.

Trufas à parte, a comida local do Piemonte também é ótima. O típico agnoloti del plin é espetacular em todas as versões; a carne cruda e o tajarin valem a pena mesmo sem as trufas brancas. Também conhecemos nocciole (a avelã que deu origem à Nutella) que é da região e é servida das mais diferentes formas: torrada com sal (vale a pena comprar para trazer, porque é diferente de tudo no mundo e sensacional), em pastas puras, em pastas com chocolate, em tortas e bolos.

Sobre os restaurantes, adoramos o Ristorante Gastronomico do hotel (Relais Villa d’Amelia), que é aberto mesmo para não hóspedes. Tem uma estrela Michelin muito merecida. O salão é bem bonito e elegante (não tem nada cara de “restaurante de hotel”), o serviço é excelente e a comida deliciosa. Gostamos tanto que jantamos no bistrô (que tem menu mais simples, mas também é muito bom) no último dia.

Jantamos no La Ciau del Tornavento, outro restaurante com uma estrela Michelin. O restaurante é impressionantemente bonito e tem como proposta uma cozinha um pouco mais moderna, usando produtos locais. O restaurante tem potencial, mas não foi uma experiência memorável, especialmente porque o serviço estava bem confuso com o restaurante cheio.

Já partindo para restaurantes mais simples, conhecemos o La Piola, em Alba. O restaurante fica na própria cidade e é dos mesmos donos do Piazza Duomo (duas estrelas Michelin, que ficou para a próxima). O La Piola é bem descontraído, mas é um ótimo restaurante. Comida e serviço excelentes, com aquela cara de restaurante que daria para comer todos os dias (e deve ser mais barato que o Ráscal…).

Fomos também ao Osteria dell’Arco, em Alba, que é bem tradicional. Tínhamos lido muitos comentários bons sobre o restaurante e realmente a comida é bem gostosa (inclusive o estranho “signature dish” que é uma salada russa). O serviço é lento, mas indo com a expectativa certa, achamos que vale a pena.

Para os almoços, escolhemos restaurantes perto das vinícolas que íamos visitar. Fomos ao Bovio Ristorante (em La Morra, perto do Oddero) e no Le Torri (em Castiglione Falletto, ao lado do Vietti). Ambos foram ótimos e tem lindas vistas da região.

 

*matéria se desdobra em outras duas. Sobre a feira de trufas brancas e sobre visitas a produtores da região clique abaixo:
http://pisandoemuvas.com/2018/01/07/o-vinho-dos-reis/

http://pisandoemuvas.com/2018/01/07/a-feira-de-alba-cesio-137-requer-cuidados/

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