Barca Velha, o sonho de Fernando Nicolau de Almeida

A história do vinho em Portugal é antiga. Os primeiros registros de exportação de garrafas são do século XIV. Três séculos depois o vinho do Porto foi um dos principais produtos incluídos no Tratado de Methuem, de 1703, em que a nação ibérica abriu sua economia à importação dos produtos britânicos e, em contrapartida, os britânicos permitiram a importação de vinhos portugueses. Se a história dos fortificados portugueses é longa, a tradição do vinho de mesa do Douro não é. Tem menos de 70 anos.

Deve-se a um sonho de Fernando Nicolau de Almeida, o enólogo que à frente do Casa Ferreirinha decidiu fazer um grande tinto português que pudesse levar o terroir do Douro a um patamar similar ao dos grandes vinhos franceses e italianos. A ideia era combinar castas locais de diferentes altitudes para combinar acidez, frescor e taninos de alta longevidade. Assim nasceu o Barca Velha, cuja primeira safra é 1952.

“Os vinhos perdiam o frescor em três ou quatro anos depois de engarrafados, ele queria algo diferente. Foi à França, foi a Bordeaux, estudou o que era preciso fazer”, afirma Luis Sottomayor, enólogo hoje à frente do Barca Velha e cuja primeira missão foi trabalhar na safra 1989, que se tornou um Casa Ferreirinha Reserva. O início não foi fácil. Era preciso transportar gelo de Matosinhos até à Quinta do Vale Meão (hoje o Barca Velha é feito noutra quinta, a da Leda) para poder controlar a temperatura nas cubas de fermentação. Os caminhões saíam à meia noite e chegavam às oito da manhã.

 

O trabalho de identificar se uma safra será transformada em Barca Velha ou Casa Ferreirinha Especial não é fácil. Desde 1952, apenas 18 colheitas tiveram a qualidade esperada pelos enólogos para se tornarem Barcas Velhas. “Não sinto a responsabilidade, trabalho há 30 anos e tenho uvas muito boas e quem tem boas uvas faz bons vinhos”, observa Sottomayor, que esteve no Brasil em junho para participar de degustação vertical do vinho em uma das provas especiais do Vinhos de Portugal 2019.

Questionado se houve alguma safra em que ele foi rígido demais e, se tivesse a oportunidade de voltar atrás e rebatizá-la de Barca Velha, Sottomayor sorriu. Disse que a de 2001 o faria trocar o Reserva Especial pelo rótulo de Barca Velha. “Grande ano”, destacou.

Na prova, foram degustadas as safras 1965, 1982, 1991, 2008 e o Ferreirinha Especial 2009.

1965 – Feito da mesma maneira do primeiro Barca Velha, nascido em 1952, quando a energia elétrica ainda não tinha chegado às adegas. Com pouco mais de 50 anos, está no ponto para ser bebido, aromas terciários, taninos domados.

1982 – Já feito na era da eletricidade. O ano marca a enologia moderna em Bordeaux e aqui também. Os aromas terciários estão apenas a começar a aparecer, sente-se “muita pimenta, frutos secos como a noz e a amêndoa, e na boca é de uma frescura extraordinária, uma intensidade fora do comum”, resumiu Sottomayor.

1991 – Vinificado por Sottomayor, ainda tem taninos presentes e uma acidez longa, o que mostra que o Barca Velha é um vinho para ser comprado e esquecido por décadas na adega. O tempo é essencial.

2008 – Um feto, vinho a ser bebido daqui a 20 anos, pelo menos. Desde a safra 1997, declarada Reserva Especial, o vinho é feito com madeira francesa.

2009 Reserva Especial – Quando não se tem dinheiro e não se dispõe de paciência de décadas, esse rótulo é um dos melhores vinhos portugueses. Impossível não pensar em Rioja, em Rioja Alta e seu 904, outro grandioso custo benefício. Há uns 5 anos, tive a oportunidade de beber um Reserva Especial 1989, com 25 anos de vida. Excelente. Se tivesse de escolher, ficaria com ele e não com seu irmão mais precioso e raro.

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