Por Susana Bragatto

As priscas tardes de abril em Madrid são poéticas. A primavera já balouça nas arvre e as terraças vão se animando com gente do mundo inteiro. Mas sobretudo espanhóis. Digo isto porque o madrileño típico adora sua cidade, e (pelo menos pra mim, gringa-habitante-de-território-mezzo-espanhol) (porque vivo em Barcelona, outra cidade máaagica, mas isso é outro capítulo) (voltando) o amor do madrileno por sua cidade é visível por sua presença ululante na rua, nas promenades repletas das supracitadas terraças ou em mercados a céu aberto onde se vendem de livros, roupas e antiguidades a souvenires da Guerra Civil e brinquinhos de abuela.

Eu comprei uns argolões tipo hip hop wannabe girl por preços ligeiramente exorbitantes no famoso mercado de El Rastro, o maior da cidade. Só porque, bom, é charmoso consumir nas ruas de Madrid na primavera.

A familiar Bodega Ardosa, no bairro pop de Malasaña, foi dica de um amigo paulistano bon vivant que morou na Espanha por um ano. Lindura da porra por dentro e por fora, segue firmeforte desde 1892. Desde então, já passou por aí até Frank Sinatra, que deixou uma dedicatória para Gregorio Monge, patriarca do clã responsável até hoje pela administração do local.

Se os parisienses têm seus cafés cheios de babauís históricos-filosóficos-literários, os madrilenhos vivem a boemia nas bodegas.

As tabernas e bodegas são populares na Villa de Madrid desde pelo menos o século XV, quando os revendedores de vinhos eram chamados de regatones, bem antes da música, e a Santa Igreja ainda vendia vinho. Os mais antigos estabelecimentos atualmente em atividade datam em geral da segunda metade do século 19, suponho que coincidindo com a onda de urbanização/industrialização das grandes capitais europeias. De hecho, na virada do século 20 se contabilizavam umas 1.500 tabernas e bodegas em Madrid.

Na Ardosa, provamos um regular-agradável tempranillo da casa, Montequinto (Rioja), e pra comer seguimos a recomendação do camarero, que nos jurou ser fã da berinjela com salmorejo. Já meu parça catalán estava com desejo de callos, essa dobradinha sans feijão branco típica madrileña. Eu num sou de fazer ode a tripas, mas HailCallosDeLaArdosa.

O extenso menu da casa inclui 47098 outros platillos, tapas (pequenas porções) e vinhos, de anchovas do Cantábrico a rabas, morcillas, cebolas recheadas de atum e canapés de arenques ao xerez, além de uma muy aclamada tortilla de batatas. Mas o compasso boêmio da cidade é assim, hit the bar à tardinha –>> pedir uma porçãozinha e uns bons vin –>> e partir pra próxima levando saudade, esse bom motor do amor.

Assim foi que a gente saiu do Ardosa e terminou a noite no El Tigre, um bar completamente diferente, mas visivelmente querido das gentes (sobretudo as xovens), a julgar pela peña ruidosa que lotava seu longo e estreito salão numa segunda à noite.

 

Menor ideia de que vinho nos serviram (nao sei como tão aceitando um texto meu aqui no Pisando, me expulsem!). Depois de alguns anos vivendo na Espanha, porém, uma lição eu aprendi: confiar no lugar, de preferência indicado por um local ou viajante com alguma credencial, traz geralmente boas surpresas, e até o vinho mediano pode ser considerado aprazível — considerando que eu me formei na escola do vinho chapinha (shame on meaah), mas desde que me tornei adultinha passei a demi-apreciar adornos como safras, uvas e descrições psicodélicas de buquês.

No El Tigre, o lance é pedir o drinque e ganhar um prato enorme eu disse ENORME de pinchos, tapas, coisas, enfim.

A foto diz tudo, me abstenho de inutilmente tentar abarcar em palavras tal experiência.

(nota: a gente comeu tudo e ainda repetiu)

Tudo isso por 7 preciosos euros (2 vinhos + montanhacarboproteica).

Toda essa montanha de carboidrato e carnes processadas e tapeo (aqui, comer pequenas porções é um esporte com vocabulário dedicado: ”ir de tapas”, ”tapear”, ”pica pica”, ”picar”…) nao redundou em maiores transtornos digestivos, mas é verdade que eu tava tentando explicar depois pro meu digníssimo català por que a gente no Brasil diz “”comi tanto que fiquei até triste””. Ah, Madrid…..

 

El Tigre Sidrería– Calle de las Infantas, 23/30 (há 2 unidades na mesma rua)

La Ardosa – Calle de Colón, 13

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