A fumaça azul do Caribe

Por Nelson Luiz Pereira

O eterno maestro Tom Jobim foi um dos poucos que conseguiram trocar o vício pelo prazer. Desde a juventude sempre fumando cigarros e bebendo seu sagrado chopinho, passou em sua idade mais madura a apreciar os charutos. Trocou o tragar pelo saborear em seu traje típico, camisão solto e chapéu panamá. Romeu Y Julieta lhe caía bem…

Embora meu assunto sejam os vinhos, de vez em quando, por pura prazer, dou meus palpites sobre charutos. Já de cara, com dois pré-requisitos: só cubanos e após uma bela refeição. Cubanos são também chamados de Puros, porque não existem charutos que se equiparem aos do terroir de Vuelta Abajo, que produzem o melhor tabaco do mundo. Quanto à segunda condição, depois de bons pratos e e bons vinhos, não há refeição completa, sem a finalização com a fumaça azul.

Este companheiro anima as conversas fora da mesa e deve ser acompanhado de bebidas apropriadas, por ele secar a boca à medida que queima. De drinks refrescantes no verão, passando por vinhos fortificados, até os clássicos destilados, como Cognac, Armagnac, Malt Whisky, e Rum, todas as opções têm seu momento.

Charutos são como vinhos, precisam estar bem conservados. Absorvem a umidade com facilidade, assim como a perdem da mesma maneira em ambiente seco. Portanto, ele deve ser macio ao toque, mas sem exageros.

Quanto ao tamanho e calibre do charuto, a questão é pessoal, muitas vezes ligado ao tempo disponível para o prazer. De todo modo, prefira charutos de calibre maior. Um bom início são os Robustos de ring 50, cerca de dois centímetros de diâmetro. O calibre maior tem duas vantagens. A primeira é que a mistura de folhas é mais rica e complexa. Em segundo lugar, menor chance de travar o charuto, fato desagradável em sua apreciação. Um Robusto é um Puro para cerca de 50 minutos. A partir daí, formatos como Pirâmide, Churchill e Double Corona, podem alongar o prazer para quase duas horas.

Para cortar o charuto e acendê-lo, nada melhor que um vídeo da Casa de America de Madrid, Espanha, com o expert José Andrés Colmena. No nosso dia a dia, o acendimento com fósforos de formato longo resolvem bem a questão. https://youtu.be/Kvpau6PxMms

Depois de aceso, é pensar nas harmonizações, essas são algumas das memoráveis que tive o prazer de apreciar:

Partagas Salomones e Ron Zacapa XO

Este é um Habano duplo figurado com ring 57, o maior do mercado. Confeccionado por torcedores experientes, seu formato exige extrema precisão, onde a variação do calibre ao longo do charuto é rigorosamente graduada.

Partagas é uma marca de enorme tradição com Puros de alta fortaleza, indicada para fumadores experientes. O início do charuto (o terço inicial) admite como acompanhamento um espresso mais intenso, assim como um fortificado, Porto ou Madeira. Já no segundo terço e principalmente no terço final, um destilado de personalidade marcante se faz presente. O excepcional rum guatemalteco Zacapa XO reúne força, maciez e uma sugestão de doçura, bem de acordo com a potência final deste extraordinário Puro.

Montecristo nº 2 e Whisky Talisker Single Malt de Skye 10 anos

A marca Montecristo é de grande aceitação entre os amantes de um bom Habano. Geralmente com Puros de fortaleza média, abre uma exceção neste caso em particular, adquirindo sabores marcantes e de grande potência. Um dos ícones da marca, este nº 2 é um Pirâmide de ring 52 com cerca de 15 centímetros de comprimento. Novamente, o início pode ser o mesmo com espresso e um fortificado. Em seguida, seus aromas e sabores de grande intensidade pedem um Malt Whisky igualmente marcante como o explosivo Talisker da ilha de Skye. A potência de ambos se funde num final arrebatador.

Hoyo de Monterrey Double Corona e Cognac XO

Um dos maiores clássicos dentre os Habanos, prima pela extrema elegância, suavidade, mas com muita personalidade, no mundo dos Habanos seria o equivalente a um Bourgogne.Com cerca de 19 centímetros de comprimento e ring 49, este formato extremamente distinto fornece quase duas horas de contemplação.  Por sua elegância, pode ser acompanhado somente com um belo Madeira envelhecido, ou por drinks como um Mojito ou um Negroni. Contudo, pelo menos para seu terço final, naturalmente mais marcante, precisamos do rei dos destilados: quando o assunto é elegância, nada como um distinto Cognac. A categoria XO garante o nível de refinamento que a bebida exige. Se a conta bancária permitir, Remy Martin Louis XIII pode levar a um final apoteótico.

Enfim, sozinho ou acompanhado, o charuto é o cachorro esfumaçado, parafraseando Vinicius de Moraes. Ele acalma, ele alegra, ele inspira as boas ideias e o bom papo. Freud já sabia desta terapia sem jamais incentivá-la a seus pacientes. Afinal, alguém precisava pagar a conta.

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