Conheça o Rio sem ir a Copacabana

Por Augusto Diniz

A nobreza do centro do Rio é um pequeno espaço encruado em uma daquelas galerias dos antigos prédios da cidade de fina arquitetura, mas de conservação parca. Ali, de frente a um cabelereiro, o balcão se apresenta vistoso: bolinho de ovo recheado, vagem empanada, pernil de porco ainda no osso, carne assada salpicada de tiras de cebola… O chope de colarinho honestíssimo – no máximo meia polegada.

O pequeno Lord Bar (rua da Quitanda, 30) é de uma fidalguia carioca ímpar. Abre somente dia de semana, a partir das 7 da matina. Trata-se de um dos mais autênticos lugares que alguém pode ir pela manhã naquele território.

Siga o périplo e caia no Rei dos Frangos Marítimos (rua Miguel Couto, 139) para o almoço a base do peixe mais conhecido do País. Aqui se encontra o Beco das Sardinhas, onde o fruto do mar popular vira iguaria nobre, mesmo sendo vendido apenas empanado com farinha de rosca e um fatídico molho de limão de tempero.

O que importa ou quem se importa. Principalmente se vem mais chope – num calor de 40° a pino no meio do dia. Depois de umas cinco sardinhas e algumas tulipas geladas, olhe bem para frente, pegue a Visconde Inhaúma e saia à beira mar – da Baia de Guanabara, sendo preciso.

Caminhe à direita por dentro das vielas da parte mais antiga do Rio (ainda de pé): Paço Imperial, Praça XV, Arco dos Teles e a rua do Ouvidor – adentre na pequena livraria Folha Seca (rua do Ouvidor, 37) e veja seu belo acervo de obras literárias da história do Rio e de seus personagens.

Caminhe ainda por ali, vá a alguma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, na Casa França-Brasil. Não quer saber de mostras ou assemelhados, sente na Toca do Baiacu (rua do Ouvidor, 41), colado no estabelecimento de livros aqui citado, numa mesinha no meio da estreita via ainda de paralelepípedo e se inspire nos centenários casarios debruçados à face da rua, num pedacinho do Rio de imperiosa elevação.

Volte à beira mar, ou melhor, à orla da baia e caminhe rumo à praça Mauá, pegando na sequência a rua Sacadura Cabral, depois de cumprir algumas centenas de metros de uma vista portentosa do velho e do novo Rio, como o Mosteiro de São Bento e o Museu do Amanhã.

Vem o Largo de São Francisco da Prainha, alguns barzinhos no cenário antiguíssimo em direção à Pedra do Sal, a volumosa rocha onde antes se acabava no mar, mas que há décadas é parte do asfalto por conta de sucessivas obras de aterramento – que virou uma imensa zona portuária.

Suba a rua Sacadura Cabral, e na esquina com a Barão de Tefé, note o emblemático Cais do Valongo, ali cercado, onde os negros aportavam à cidade aos milhares. Sobrou pouco dele, mas suficiente para uma profunda reflexão sobre o escravagismo neste País honrado graças às mãos negras e seus traços fortes, suficientes para criar uma entidade cultural a essa terra um tanto sem cara até então.

Uma quadra de volta à rua Sacadura Cabral, no número 155, um desses magnânimos legados negros se apresenta em forma de música. É ali que o samba do Rio se encontra sublime.

Entre no belo casarão, de imponente pé direito. Ouça o cavaco, o violão, a percussão e o canto na palma da mão. A noite se deságua na manifestação popular à flor da pele promovida no Trapiche Gamboa. Se emocione com os cantos, a dança, o ritmo, a roda, pois nesse caminho até aqui, você já conheceu a sagração do Rio, sem dar um passo em Copacabana.

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